Monday, May 30, 2011

A SAGA DOS HOMENS (PARTE 2)



Entre "a igualdade" e a "liberdade" dos homens e o poder dos super Homens, um tempo cinzento se abateu sobre aquela terra. Os senhores perseguiam e matavam os que diziam em público as tais palavras proibidas, elas eram considerados subversivas e, portanto, dizê-las e/ou proclamá-las era considerado ato de rebelião, que deveria ser detido a todo custo. E custou mesmo a vida de muitos e a retirada de outros do convívio social. Estes últimos ou eram lançados na cadeia ou eram enviados para terras muito distantes, incomunicáveis (esta é outra historia).

Em contra partida os homens comuns, servidores, além de terem desenvolvido habilidades com as artes, agora tinham a potência do ideal nas mentes. Eles reagiam de forma desafiadora contra os poderosos. Eles já sabiam que toda aquela mística, base do poder dos Homens, era relativa e não passava de uma invenção deles mesmo. Reconheciam que a idéia era boa, mas que estava edificada sobre alicerce mentirosos e que,seus senhores, só queriam manipulá-los. Na maioria das vezes o discurso era persuasivo a ponto de roubar a mente e as convicções. Agora eles realmente lutavam contra isso. Começaram a avisar uns aos outros -"não os ouça"; "cuidado com as suas mentiras"; "pensem, vocês são iguais e livres para escolher seus caminhos"; "fujam do caminho da mentira e da a manipulação". Alguns, mais exaltados, se entregaram a uma guerra silenciosa, mas armada e sangrenta. Criaram artefatos explosivos e os colocavam onde os Homens estariam discursando, por exemplo. Das poucas vezes que realmente as bombas funcionaram mataram apenas homens que assistiam os inflamados discursos dos ditadores, não causando dano ao alvo pretendido. Na verdade, nenhum ditador morreu assim. Teve quem se fingira de morto, mas que continuou articulando junto aos demais senhores para manterem o poder e calar seus adversários rebelados. Estes se protegiam atrás da morte.
Os homens revoltados reuniam-se semanalmente, escondidos. Veladamente contavam como foi bom e difícil ter enxergado a luz. Outros contavam como conheceram "liberdade" e "igualdade". Estes eram discursos bem emocionas. Um tema era recorrente nestas reuniões que aconteciam no subterrâneo da cidade, a decepção de quem acreditou e serviu aos Homens crendo que assim serviam aos deuses. Sobre isso sempre falavam que a decepção com os Homens tornara-se ódio, tanto dos opressores, quanto de sua própria tolice e cegueira, quando não viram o que estava explicito: o sorriso e os abraços dos Homens escondiam perfis possessivos de verdadeiros vampiros dominadores, que manobravam com a culpa e a credibilidade de gente simples. Os que contavam este lado da história eram tratados com afeto pelos seus companheiros. Sempre se tentava fazer com que desistissem da idéia de se aliarem aos que abraçaram a luta armada contra os senhores da terra. Para eles se voltavam as atenções e os abraços, também procurava-se dizer-lhes: "descobrir o valor da igualdade e da liberdade sempre traz consigo a dor de ter vivido o inverso de nosso ideal,mas é melhor a dor da decepção do que viver eternamente no conforto do engano". Nada disso foi escrito e tudo se guardava na memória.

Nos palácios os super Homens também se reuniam. Assentados em torno da gigantesca mesa da casa real do primeiro Homem, ele e seus seguidores riam do idealismo dos subalternos. Contavam anedotas com as notícias que lhes chegavam aos ouvidos de como se vivia igualitária e livremente nas aldeias de seus servidores. Naquelas reuniões eles também inventavam mitos de como seus deuses castigavam os que não se sujeitavam a eles mesmos, que deveriam sempre ser vistos como seus (dos deuses) fiéis e santos representantes. Os Homens destilavam sarcasmo. Juntos aos pratos caros devorados rapidamente sempre se ouvia histórias que ridicularizavam os homens. Havia também a decisão de matar ou expulsar os prisioneiros, mas na maior parte do tempo o que se ouviam eram gargalhadas. Eles estavam seguros pelos muros do poder.

Era um fim de tarde chuvoso na terra dos homens, o vento frio trazia uma garoa gelada que empurrava os ânimos para debaixo das cobertas. Quando a noite chegou, as ruas estavam vazias e mais frias ainda. Alguns homens da iniciativa armada saíram as escondidas e colaram cartazes nos postes e muros. Nos cartazes podia ser lido: "Morte ao opressor". O cartaz era assinado por um grupo até agora desconhecido pelo nome. Até então ninguém ouvirá falar dos "Libertadores Igualitários", que ainda utilizavam o slogan "pela morte ou pela paz, liberdade e igualdade". O slogan estava no cartaz abaixo do nome do grupo.

Logo pela manha, quando os primeiros cartazes foram lidos, houve medo. Qual seria a reação dos super Homens? O que estava acontecendo com os homens que, até então, mesmo trabalhando para os Homens, viviam em suas vilas e ruas o ideal de igualdade e liberdade? Todos sabiam dos atentados fracassados e das reações sádicas dos senhores que as bombas causaram. Agora eles tinham uma declaração pública de guerra. Coisa que a maioria já não queria, ao menos não mais.

A noite caiu novamente e os Homens se reuniram de novo. Agora o clima de sarcasmo dava lugar a necessidade de mostrar a força. Eles prepararam um plano complexo que começaria imediatamente com a invasão das vilas e vielas dos homens e com o assassinato, indiscriminado, de quem encontrassem pela frente. No dia seguinte a esta reunião os Homens montaram seus cavalos, vestiram roupas pretas e máscaras enquanto aguardaram o anoitecer. O objetivo da missão macabra era matar o maior número de pessoas possível, preferencialmente os indefesos. Irreconhecíveis pelos disfarces, os senhores seguiram através das ruas dos servidores assim que a noite caiu. Com armas em punho atiravam em todos os que estavam fora de casa. Os primeiros atingidos e mortos foram três homens que bebericavam e conversavam sobre tudo e sobre nada após um dia de trabalho, eles caíram mortos com tiros na cabeça. Dois outros cavaleiros se depararam com crianças jogando bola de gude e, sem nenhuma piedade atiraram e mataram-nas ali mesmo. Depois disso, o gosto de matar e a sensação de poder fez com que os Cavaleiros de Negro gostassem da coisa, então foram quarenta minutos de tiros, estupros, corpos arrastados e cabeças estouradas. Ninguém, nem em seu maior pesadelo, sequer ousou pensar em ver as cenas que foram vistas. Naquela noite os homens contaram seus mortos, noventa, a maioria velhos, mulheres e crianças.

No dia seguinte, estranhamente, os super Homens visitaram os homens. Entraram nas ruas manchadas de sangue e cortadas por choros e gritos de dor. Seus passos eram lentos e pareciam pasmos com o que viam. Eles levavam seus deuses nos ombros. Se dirigiram ao local onde as primeiras crianças foram alvejadas onde um deles gritou e logo foi seguido pelos demais - "Nossos deuses vingarão o sangue inocente que caiu esta noite nestas terras. Juramos pelos nossos pais, nossos deuses e nossa honra que enforcaremos aqui cada um dos monstros que vos macularam".

Os homens enterravam seus mortos. Os Homens voltaram gargalhar.

Continua...

Wednesday, May 25, 2011

A SAGA DOS HOMENS (PARTE 1)



Um dia o Homem começou a olhar para si, viu uma obra prima, um ser que era capaz não apenas de saber sobre as coisas, mas , também,era capaz de saber que sabe e saber que não sabe. Apartir de então nosso personagem ,que era inventor por profissão e natureza, cresceu. Tornou-se mais que um inventor, ele descobriu como compreender fenômenos, curar doenças, entender mistérios e ver além das fronteiras dos olhos. Criou máquinas, atravessou barreiras, duvidou do indubitável e se tornou livre das amarras acusativas da moral. Ele se tornará um super Homem. Ele se gabava, olhava no espelho e via a imagem de si mesmo glorificada por suas obras e seus saberes.
O Homem ainda percebeu que suas mãos eram capazes de criar o que os olhos e ouvidos chamavam de belo. Todas as artes estavam em suas habilidades intelectuais e intuitivas; as cores lhes serviam como escravas submissas; seus deuses, ele mesmo criava. Até o sagrado pertencia a ele, o mago e o santo, o senhor, o Homem.
Numa tarde ele descobriu sua maior qualidade: persuadir e dominar, principalmente sobre os que não perceberam que poderiam ter as mesmas capacidades do Homem. Estes foram facilmente domados, ou como o senhor de todos dizia, "foram domesticados". Além das cores, agora, seus semelhantes o serviam. Eram inferiores, não eram homens como o Homem, eram sub homens.
Tendo criado os seus deuses e dominado seus amigos ele agora lhes impunha como cultuar, seguir e obedecer seus senhores esculpidos por ele mesmo. Seus deuses sempre diziam aos amigos serviçais: "sirvam ao Homem, ele é o melhor amigo de vocês. Tudo que fizerem a ele terão feito a nós". Tendo dito isso, os deuses do Homem, através do Homem, dominaram os sub homens para o super Homem.
O nosso personagem descobriu nos deuses os maiores aliados de seu poder e genialidade.
O Homem cresceu ainda mais e se multiplicou. Como exemplo de sucesso ele gerou admiradores que quiseram seus saberes e seus poderes. Bastou reproduzir os mesmos métodos e ,agora, havia um batalhão de Homens e uma enorme inumerável multidão de sub homens, todos submissos a seus verdadeiros senhores, seus amigos, os super Homens.
Um dos subalternos servidores ouvira falar de uma palavra que tinha poderes mágicos acima do poder dos deuses. A palavra não podia ser dita em qualquer lugar, pelo menos não na presença de seus amigos senhores. Mesmo assim a tal palavra se espalhava com aquele marketing do "só conto pra você porque és meu amigo". Em meses todos os servos conheciam a tal da palavra "igualdade". E a coisa virou moda. Começou a ser cantada, escrita, dançada, esculpida pelos sub homens, que, ao verem o que fizeram, apenas com a "igualdade", perceberam que também eram capazes de criar arte e, assim, começou o fim da amizade entre eles e seus amigos senhores de tudo. Porém, o fim mesmo, foi com a descoberta de uma outra palavra sagrada que viera do oriente, essa cantada pelo vento. Vários homens ouviram de uma vez só, o sussurro:"liberdade". O mesmo processo e o mesmo fim. Liberdade virou arte e a arte os fez mais um pouco livres e iguais. Já não viam os deuses como senhores. Descobriram que os Homens criaram os deuses para se assenhorearem deles, que eram ironicamente tratados de amigos e que não passavam de coisas para seus superiores. Eles tinham nojo da superioridade e diziam nas ruas , nos becos, nos bares e nas casas: "a igualdade nos trouxe a liberdade". A vida agora fazia sentido.
Isso não ficou barato, custou-lhes a vida, custou-lhes a obrigação de esquecerem as tais palavras transformadores. Os Homens ficaram mais rigorosos e impuseram mais diferença e servidão.Já não se chamavam de amigos. Eram senhores e servos no chamar, mas na alma eram traidores e traídos, esmagadores e esmagados, respectivamente. Ódio, foi o que se criou entre eles, estavam mutuamente revoltados, feridos e decepcionados. Os dias ficaram cinzas, a vida perdeu a cor. Os Homens matavam os homens e os homens tentavam matar os Homens. Ambos corriam riscos.

Continua....