Wednesday, July 06, 2011

A SAGA DOS HOMENS - PARTE FINAL


Luz, muita Luz. Foi o que ele viu na parte central de sua terra. E que bela terra. Aquela visão foi apenas a repetição do que ocorria diariamente e no mesmo horário. Início da noite, a Luz brilhava e ele se dirigia para o mesmo lugar, se assentava na mesma pedra e ouvia as histórias e lições que seu "Amigo Iluminado" lhe contava. Sempre havia uma expectativa pelo encontro. Mas aquele fim de dia tinha um ar diferente. Os últimos encontros não foram muito confortáveis, não o encontro dele com o Amigo, mas era que, nos últimos cinco dias,a história contada era tão confusa e assustadora quanto as conclusão que Haddahan havia tirado sobre tudo aquilo. Ele já não sabia se queria continuar aquele assunto, mas o Amigo já havia chegado e o chamava para conversar.

- Como vai Haddahan? Ainda preocupado com o que te contei nos últimos cinco dias?

Haddahan tentou não demonstrar que não estava satisfeito com a direção que a conversa, que nem havia começado, já estava tomando novamente. A tal da história dos "homens e dos Homens" perturbava mais que preocupava.

- Preocupado? Não, confuso e enjoado, respondeu Haddaham enquanto mastigava uma folhinha de grama e olhava pro lado ao mesmo tempo em que marcava um ritmo com o pé.

- É Haddaham, nem sempre é fácil entender o que está além de nós, mesmo que esteja diretamente ligado a nós.

- Fácil compreender? Nos últimos cinco dias eu deixei meus afazeres e minha família, sentei aqui como sempre e você me contou uma historinha sem sentido , sempre me pedindo atenção para tudo. Sua história me dava sono na hora, mas me tirava o sono depois. Nesses dias não consegui dormir bem uma noite sequer. Fiquei só pensando no que você me contou, mesmo não conseguindo entender o sentido. Não paro de pensar, estou perturbado e minha esposa e filhos já não sabem o que fazer. Se for algum castigo seu me diga o que você quer e me deixe descansar.

- Meu filho Haddaham, confie em mim, amanhã o descanso é certo. Hoje eu vim pra te dizer aonde quero chegar, ou melhor, aonde você deve dizer para teus filhos para que eles não cheguem. A história que te contei é sobre eles, teus filhos e os filos deles, tuas filhas e as filhas delas e todos os outros que virão.

- Você quer dizer que tudo aquilo é uma previsão? Se for piora tudo. Se for me diga quando, interpelou Hadahham.

- Não há "quando" nessa história, não há o tempo no meu jeito de ver as coisas. Tudo que te disse pode ser sim uma previsão, mas não se pode dizer nada sobre "quando". Se eu quiser te responder quando terei que dizer: sempre. Os homens e os Homens viverão, e tudo aquilo que você ouviu pode acontecer sempre, basta haver homens e Homens.
Enquanto dizia isto o Amigo Iluminado escrevia na areia com um galho de árvores as palavras "homens e Homens".

- Por que isso? Interrogou Haddaham apontando para as palavras escritas na terra.

- Para te mostrar a diferença que as palavras faladas não mostram. Sempre que houver quem se julgue maiúsculo e que considere seu semelhante um minúsculo qualquer; sempre que houver quem faça uso de meias verdades para enganar e oprimir os seus iguais; sempre que houver quem use qualquer meio para não e se sentir mais um, a "Saga dos Homens e dos homens" terá iniciado. Haddaham, conte isto aos teus filhos, diga que contem aos seus e que estes contem aos deles, só eles podem mudar tudo isso.

- E você Amigo, por que nem aparece na história que me contou? Por que não muda todo esse "sempre"?

- Haddaham, eu estou o tempo todo entre os homens e os Homens da historia. O vento é quem trás palavras ditas ao coração e escritas em papel. Aquelas palavras são minhas e eu sou aquelas palavras também. Minhas palavras sou eu entre eles. Eles as distorceram, as transformaram em ódio e luta. Outros preferiram acreditar na mentira dos que os oprimiam do que na simplicidade de meu ensino de Liberdade e Igualdade. Haddaham, minhas palavras sempre serão estas, mesmo que as tentem mudar. Teus filhos é que mudarão ou viverão o mesmo fim, dei-lhes Liberdade e Igualdade para isso. Disse o Amigo

- Mas foi o saber que iniciou toda a crise, toda a diferenciação que oprimiu os homens e exaltou os Homens. Amigo o saber é ruim?

- Você é prova que não é bem assim. Você sabe mais que teus filhos e a eles serve com o teu maior saber. Os soberbos do saber são ignorantes da sabedoria. Não há ali, na história, sabedores e não sabedores, há quem ignorou a sabedoria e quem resolveu não ver a verdade que estava tão clara.

Haddaham percebeu que tinha sido exposto nos últimos cinco dias à seu próprio futuro e que depois deste diálogo as coisas começavam fazer sentido. Mas, apenas para não restarem muitas dúvidas, resolveu fazer uma última pergunta.

- Amigo, então tua história é um aviso? Questionou.

- Também Haddaham, também. Minha história é a tua História, mas pode não ser.

O Amigo Iluminada levantou-se, pôs a mão sobre a cabeça de Haddaham, beijou-lhe a testa e caminhou, como sempre fazia para a parte interior da floresta de Dilmun, onde os rios fazem a terra florescer. Enquanto andava iluminava tudo em sua volta e dizia:

- Haddaham, aproveite bem o descanso de amanhã e mande um beijo para esposa e as crianças. Diga que quero vê-los depois de amanhã aqui. Eu trarei pão e peixe pra gente assar. Traga o vinho Haddaham. Bom descanso para nós.

O homem levantou-se e se foi a luz do luar em direção a sua casa, de onde o cheiro de comida boa já inundava o ar. Fez carinhos nos bichos que se aproximavam dele enquanto caminhava.
Foi recebido pelos seus dois filhos com um abraço nas pernas e pela esposa com um beijo acolhedor. As meninas penteavam os cabelos e do quarto gritaram, " papai que bom que você chegou".

- Hoje na hora do jantar papai vai começar a contar uma história para vocês, foi o Amigo que me contou. Ah, depois de amanha, o Amigo quer lanchar com a gente, pão, peixe e vinho.

Um sonoro "Eeeeeeeeeeeeeebaaaaahhhhhhhhhhh" de comemoração foi dito pelas quatro crianças ao mesmo tempo. Yonnah, esposa de Haddaham, sorriu.

Se não fosse a história que o pai contava e era ouvida com toda atenção pelos pequeninos, nada de novo aconteceu naquela noite na casa de Haddaham e Yonnah, inclusive a mesma briga de sempre: seus filhos homens sempre disputavam quem iria sentar-se ao lado direito do pai.

Aqui termina ou começa a nossa saga.

Fabio

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