Thursday, June 02, 2011

A SAGA DOS HOMENS (parte 3)



Os Homens voltaram para suas casas em dois carros. Na verdade grandes e caríssimos carros de luxo que conduziam para mansões aqueles seres bestializados pelo poder e pela corrupção de seus caráteres. A cena era bizarra no interior dos dois carros. Os Homens voltaram a rir e durante a viagem, mais que sadicamente, contabilizavam quantos homens cada um tinha matado na noite anterior. Detalhes mórbidos ainda eram relatados: pedidos de misericórdia; agonias; alvos que correram e foram atingidos em movimento. Cada um se vangloriava de suas atrocidades. Era nesse clima de quem golpeou mortalmente seu inimigo que os super Homens voltavam para casa, brindando a vitória com vinho raro e em taças de cristal.

Os homens lutavam agora para se reconstruir em meio ao caos. Caos que destruíra suas almas. A cidade estava em silêncio. O silêncio perdia para choros e gemidos de dor. Havia muitas coisas no ar, muitas dúvidas. Revolta, ódio, incredulidade diante dos fatos. Algumas famílias ainda voltavam do sepultamento dos seus entes queridos; algumas famílias haviam morrido junto com seus filhos.

A noite já caia quando alguns homens se encontraram na única taberna aberta. Ainda havia medo dos cavaleiros voltarem, também não havia nenhuma vontade de conversar sobre nada. Até que alguém murmurou - "Os deuses nos julgaram. Fomos amaldiçoados".Todos pareceram concordar. Outro homem entrou na taberna transtornado. O ódio e a dor estavam encarnados nele. Ele bebeu uma caneca de cerveja como o sedento que recebe um copo d'água e, logo após o ultimo gole, sentenciou - "Foram os terroristas que colaram os cartazes que mataram nossos filhos. Esses assassinos que se dizem libertadores fizeram isso para culpar nossos senhores que vieram aqui para nos estender as mãos e ainda trouxeram seus deuses para nos consolarem. Temos que descobrir quem são, matá-los e exibi-los em praça publica". Com murmúrios e quase nenhuma convicção os homens que bebiam na taberna aquela noite pareceram dizer sim a sentença, só que ninguém se levantou para nada.

Poucos perceberam o rapaz de camisa preta sentado no canto direito do bar. As sombras da luz indireta na mesa de bilhar escondiam o rapaz. A mesa, sempre cheia de homens e de copos, naquela noite, estava abandonada. O rapaz se levantou, cabisbaixo, mas decidido, tocou os ombros do homem que acabara de sentenciar os "Libertadores igualitários" a morte. O rapaz olhou nos olhos vermelhos de tanto chorar daquele pai que havia perdido seus filhos no massacre e, convictamente, falou: "Me mate, quero ser o primeiro.”

A chegada na mansão de um dos super Homens mantinha o mesmo clima de festejo. Uns parabenizavam os outros pelo plano genial e, agora, era só esperar que os homens culpassem uns aos outros e se destruíssem, assim, todo aquele fulgor ideológico viraria cinzas. "Quem vai lembrar de ideal enquanto chora de saudade", debochavam. A idéia de voltar nas vielas dos homens e oferecer-lhes conforto era louvada como a mais genial. Brindavam a inteligência e o poder de manipular suas marionetes de carne e osso. Seus olhos destilavam prazer e orgulho. Estavam bêbados da mais viciante e destrutiva das drogas, o poder, o inebriante gozo dos ditadores, a força motivadora dos egocêntricos, o tesouro dos psicopatas. Um dos homens que voltava para a sala de comemoração depois de usar uma de suas escravas sexuais, soltou a melhor piada da noite - "Senhores, vocês sabem a diferença entre a cocaína e o poder? Cocaína eu compro, uso, sinto e quero mais; o poder me comprou, me usa, me faz sentir e eu quero muito mais", muitos risos se ouviram. Cocaína é um vicio que alguém fornece ao comprador, o poder é fornecido e comprado pela mesma pessoa. Ambos demandam muitas mudanças para saírem das veias. Uma série rápida de batidas secas na porta da mansão assustou os poderosos. Quem conseguiria passar pelos guardas e pelos cães? Quando um deles abriu a pesada peça de madeira massiça que fechava o enorme saguão de entrada da casa, não havia ninguém do lado de fora, mas um bilhete fora deixado no chão. Nele podia ser lido, escrito com letras de forma vermelhas: "NÃO HÁ NADA EM OCULTO QUE NÃO SEJA REVELADO". Quando os Homens leram isto suaram frio e sentiram-se ameaçados. Pela primeira vez em muitos anos eles tinham duvidas.

Na taberna, uma confusão se armou, uns diziam que a confissão era clara, já que a camisa preta que o rapaz vestia trazia no peito um pequeno símbolo com as inicias L.I que identificaram, rapidamente, como significando que o rapaz era membro do grupo que colara cartazes desafiando os poderosos. Foi em meio ao falatório que um forte vento abriu a porta e fez bater as janelas do lugar. Junto com a ventania entrou voando bar a dentro, além de folhas secas e poeira das ruas, um papel branco do tamanho de uma página de jornal que "pousou", exatamente, no balcão onde os clientes eram servidos. Houve um silencio assustado com o bater das janelas de madeira que envolvia a pequena taberna. Todos temeram um novo ataque. Um único curioso acompanhou com os olhos o tal papel que voava. Pegou a pagina e o susto foi maior ainda. Com letras vermelhas, em caixa alta, o homem leu: "OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA SERÃO SACIADOS". Imediatamente, o homem, aproveitando o silêncio que o vento produzira, leu em voz alta. Os homens pareciam congelados por aquelas palavras.

E o rapaz condenado? Diante do silêncio explicou que, os três primeiros homens a serem atingidos pelos tiros dos mascarados e que conversavam enquanto bebiam na calçada daquele mesmo bar, eram os líderes do L.I. Dois deles eram seu irmão e seu primo. Morrer para ele, não era confissão de culpa, era a única forma que via de, literalmente, matar a saudade.

Os homens e os Homens desconheciam os fatos.

Continua...

2 comments:

jose luis said...

Sinistro

Felipe Heiderich said...

Qualquer semelhança com fatos e realidade não é mera coincidência.